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Empreendedorismo feminino é resistência em cenário ainda dominado por homens

08.03.2019 15:18 / POR Mariana Paschoal

Empreendedorismo feminino é resistência em cenário ainda dominado por homens

“E no princípio
Havia as mulheres”

Esses dois versos formam o poema “Gênesis”, da escritora nigeriana Ijeoma Umebinyuo que, como o próprio título sugere, mostra que a mulher é a origem de toda a vida.

Aqui em Londrina, a mulher também é a origem de muito projeto bacana e empoderado, como é o caso do Clube da Lavi; da Mega Feira de Varejo Enjoei, Eaí?; da Reboleira e da Mariée. 

Dar visibilidade ao empreendedorismo feminino londrinense no Dia Internacional da Mulher é um dos caminhos que encontramos para diminuir a discrepância entre homens e mulheres no cenário empreendedor: de acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), das 10.228 empresas cadastradas, apenas 14,52% têm participação feminina.

Para Lavínia Rocha, que está à frente do Clube da Lavi e da Mega Feira “o empreendedorismo feminino é um importante instrumento de transformação social porque a importância da mulher na economia foi esquecida por muito tempo” e essa defasagem histórica pode ser observada nesses dados.

Vamos conhecer esses projetos?

Mega Feira de Varejo Enjoei e Clube da Lavi

O que hoje é a maior feira de varejo de Londrina começou como um grupo para trocar roupas no Facebook. Lavínia era só uma menina de 15 anos que tinha roupas demais quando decidiu abrí-lo e convidar as amigas que também queriam dar uma repaginada no guarda-roupa. “Eu nem sabia o que era empreendedorismo, fui saber depois quando eu comecei a estudar sobre”, relembra.

E que bom que ela estudou! O grupo “Enjoei, eaí?” rendeu muitos frutos. O grupo se transformou no Primeiro Bazar do Enjoei. “Eu vendi o metro quadrado, as meninas levaram as araras e colocaram as roupas para vender. Percebi que começou a ter muita adesão de lojas e passei a promover vários eventos desse tipo”. Aí veio o segundo, terceiro, quarto, quinto... Até se tornar a Mega Feira do Enjoei, que acontece anualmente. Na última edição, que foi realizada no ano passado no Parque de Exposições Ney Braga, participaram 150 empresas, e mais de 18.500 visitantes.

A alma empreendedora da Lavínia não quis parar por aí. “Em 2019 eu quis trabalhar com um propósito”, explica. Foi aí que ela criou o Clube da Lavi, voltado justamente ao empreendedorismo feminino.

O clube é formado por cinco mil mulheres no Facebook e 1.200 no Instagram: são empreendedoras e mulheres que querem ser empreendedoras que buscam essa rede colaborativa para trocar experiências e buscar ajuda.

Para as leitoras do Londrinando, Lavínia dá um gostinho das dicas que compartilha no grupo: “Comece. Mesmo com a rotina caótica que a mulher tem. É impossível esperar o melhor momento para empreender e como diz o ditado: antes feito do que perfeito”.

Lavínia Rocha

 

Reboleira

Sabe aquela história de que mulher não precisa cozinhar, mas se ela quiser, pode? Pois é! A equipe da Reboleira leva a cozinha muito a sério. É uma loja de bolos, cookies, bebidas quentes e geladas, salgados e outros quitutes...

A Reboleira surgiu de outro estabelecimento onde a mãe da Natália Fogagnoli Dionisio, que está à frente do negócio, trabalhava como boleira. As duas compraram a loja e decidiram tocar o negócio juntas. “Enquanto estávamos resolvendo questões burocráticas, a loja ao lado ficou vaga e vimos mais uma oportunidade: abrir um café, além do serviço de bolos!” Bolo + café = combinação perfeita para algo decolar!

Natália está otimista com os negócios, que começaram esse ano (vão lá conferir, gente!), e com o empreendedorismo feminino. Para ela “esse é um caminho natural dentro do espaço que a mulher tem conquistado nas últimas décadas e acho importante termos a figura feminina em todos os cenários, principalmente à frente das coisas da nossa cidade, para reforçar isso”.

A Reboleira fica na Rua Pará, 755, Loja 05.

 
 
 
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Tomando forma ????

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Mariée

Mariée é uma empresa de comunicação especializada em mídias sobre casamento cujo público-alvo são as noivas. A ideia veio das irmãs Tanila e Thaisa Dalmut. Tanila já trabalhava na área editorial e propôs a ideia à Thaisa, que topou na hora “fiz do meu TCC em design gráfico o projeto para a primeira edição da nossa revista e ao terminar a faculdade, já vim a Londrina com a minha irmã e o noivo para colocarmos em prática”, explica Thaisa, que morava com a irmã em Erechim (RS), quando a Mariée começou a nascer, há oito anos.

A caminhada pelo empreendedorismo não foi tão fácil para as duas irmãs em Londrina. “Algumas pessoas foram extremamente receptivas. Mas muitos foram incrédulos. Recebemos muitos ‘nãos’ e mensagens negativas que nos abalavam, mas não nos derrubavam. Existia muito machismo e preconceito por ser uma empresa dirigida por ‘duas meninas’. Persistimos e, com um bom trabalho e a ajuda de pessoas boas e otimistas, conseguimos atingir nossos objetivos!”, relembra Thaisa.

Com o público-alvo formado exclusivamente por mulheres, não é de se surpreender que existam muitas que inspiram Thaisa. Amigas e exemplos de sucesso mundial são as principais, segundo a designer. “A empreender, minha irmã foi a principal inspiração. Devemos valorizar os projetos de nossos amigos e pequenas empresas”, diz.

Thaisa Dalmut

Os desafios de ser mulher empreendedora

“No início da Mariée, um cliente que se dizia designer nos convenceu que eu jamais daria conta de diagramar uma revista inteira sozinha. Saímos de lá desesperadas acreditando que precisaríamos arrumar dinheiro pra contratar aquele cara. Quando abri o portfólio dele, começamos a rir e chorar! Ele era muito amador! E mesmo assim tinha nos convencido, sem conhecer meu trabalho, de que ele conseguiria, mas eu não. A partir daquele momento percebemos que quem tinha que acreditar primeiro era nós mesmas. E deu certo!”

Esse relato da Thaisa é só um dos desafios que as mulheres empreendedoras e trabalhadoras enfrentam todos os dias no mercado de trabalho. Na opinião da Lavínia, do Mega Bazar Enjoei, esse preconceito acontece devido à construção social formada ao longo dos séculos: “existem muitos preconceitos ligados à liderança da mulher no mercado de trabalho porque durante muito tempo o homem foi o único provedor das famílias e isso gera uma desconfiança, as pessoas se questionam se a mulher é capaz de gerir um bom negócio”, expõe.

Para Natália, da Reboleira, a falta de confiança na competência da mulher também é o principal desafio na vida da empreendedora. “Empreender requer estar inserida em diversos meios e a maioria deles ainda é dominada por homens”, ilustra.

Felizmente, Londrina conta com bons exemplos para acabar com esse estigma!

Como mulheres trabalhadoras fizeram surgir o Dia Internacional da Mulher

O que essas empreendedoras londrinenses têm em comum com as mulheres operárias que ajudaram a originar o Dia Internacional da Mulher? Todas elas são trabalhadoras que lutaram e lutam diariamente para fazer história.

Apesar de ter sido oficializada apenas em 1975 pela Organização das Nações Unidas, o Dia Internacional da Mulher começou a ser celebrado já no início do século XX. Foi nessa época que operárias dos Estados Unidos e da Europa começaram a protestar pela garantia de direitos e melhores condições de trabalho dentro do movimento socialista que eclodia, principalmente, nessas duas regiões. Se ainda há discrepância nos dias de hoje, dá para imaginar que as condições de trabalho das mulheres eram ainda piores que as dos homens nos primeiros anos dos 1900...

Para a escolha do 8 de março, foram considerados alguns eventos ocorridos naquela época. No Brasil, por exemplo, houve um incêndio em 25 de março de 1911 na Companhia de Blusas Triangle, com 125 mulheres e 21 homens mortos. Alguns anos antes, em 26 de fevereiro de 1909, aconteceu a Grande Passeata das Mulheres em Nova York, quando 15 mil operárias marcharam por melhores condições de trabalho - à época, as jornadas nas fábricas chegavam a 16h por dia, sete dias por semana. Na Rússia, em 1917, um grupo de trabalhadoras protestou contra a fome e a Primeira Guerra Mundial. A data: 8 de março.

Historiadores afirmam que vários outros eventos contribuíram para que o Dia Internacional da Mulher fosse estabelecido, mas todos têm um objetivo em comum que deve ser perpetuado todos anos (e por que não todos os dias?): luta, resistência e igualdade.