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Capoeira Angola: de Salvador a Londrina

22.03.2019 17:35 / POR Mariana Paschoal

Capoeira Angola: de Salvador a Londrina

Depois que a Capoeira Angola entrou na vida de Marcelo Pinhatari, não saiu mais. O mesmo aconteceu quando a manifestação cultural entrou em Londrina, no ano de 2000. Pinhatari, que é gestor da vila cultural Casa da Vila, foi o responsável por trazer essa modalidade de capoeira à cidade depois de tê-la conhecido na temporada que passou em Salvador (BA), entre 1997 e 2000.

Ao voltar ao Paraná, Pinhatari começou a treinar despretensiosamente e as pessoas começaram a se juntar a ele. À época, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) abriu o espaço para oficinas de artes e, como a turma do “treino despretensioso” ficava cada vez maior, o capoeirista passou a ministrar uma oficina lá, que se transformou em uma oficina permanente, que se transformou no Grupo de Capoeira Angola de Londrina...

“Passei a trazer mestres do Brasil inteiro ao grupo, como o João Pequeno, um dos mais importantes da Capoeira Angola. Trazê-los fazia com que as pessoas percebessem a força que a capoeira tem e não só o que eu mostrava a elas. Isso ajudou a fortalecer o trabalho que eu vinha fazendo na cidade”, relembra Pinhatari.

Esse foi o primeiro contato que Londrina teve com a Capoeira Angola, Até então, a cidade tinha apenas aulas de capoeira regional e contemporânea. Do DCE, Pinhatari, que de acordo com a hierarquia capoeirista exerce a função de professor (mestre/contramestre/professor/treinel), passou a dar aulas em uma escola de circo até que alugou o próprio espaço em 2005, onde é hoje a Casa da Vila, e montou o Centro Esportivo de Capoeira Angola – Salvador a Londrina (CECA).

A Capoeira Angola

O professor londrinense explica que estudiosos da capoeira afirmam que essa manifestação cultural não tinha ramificações até meados da década de 1930: era tudo considerado uma capoeira só. O nome é derivado do termo Tupi Guarani “co-poera” que significa “roça velha” e remete ao mato que nascia após o nativo ser cortado. “Os praticantes, em sua maioria negros escravizados, se escondiam nesse mato para jogar a capoeira e essa pode ser uma das origens do nome”, explica Pinhatari.

Pinhatari conta também que outra teoria da origem da capoeira vem de um festejo que algumas tribos africanas realizavam, no qual guerreiros disputavam mulheres que estavam na época de se casar. Para isso, eles faziam movimentos baseados na zebra, como cabeçadas, esquiva, coice… “Os africanos que foram trazidos ao Brasil para serem escravizados não podiam celebrar a própria cultura e religião, então, dessa fusão de diferentes tribos e povos africanos nas grandes fazendas brasileiras, surgiu a capoeira como uma forma de fortalecer o corpo, a mente e a própria cultura, como resistência à escravidão”, relata Pinhatari, que também conta que estudos mostram que os escravos usavam a capoeira para preparar o corpo para possíveis fugas e lutas com os seus senhores.

À medida que a sociedade se transforma, com o fim da escravidão, início da urbanização e com o crescimento populacional do povo negro nas periferias, a capoeira também se urbaniza e a movimentação do corpo muda. Surge, então, a Capoeira Regional e, como desdobramento desta, a Capoeira Contemporânea. A Capoeira Angola, então, se refere àquela tradicional, que veio ao Brasil com o povo africano.

A Angola se diferencia da regional principalmente pelos movimentos mais lentos e por características lúdicas, que lembram mais as características de um jogo do que de uma luta e a busca pela ancestralidade, que é o principal foco da modalidade.

“Essa modalidade tem como objetivo a preservação de fundamentos de ancestralidade que vieram dos africanos, que passaram de mestres para discípulos através da tradição oral”, relata o professor Pinhatari, que explica que o método da capoeira é ensinado “pelo toque do mestre, pelo pegar, pela modelação do corpo e da mente. Não é uma coisa que você lê em um livro, vê no YouTube. Você tem que sentir. É a energia que passa de um corpo para o outro”, continua.

A mulher na capoeira

O mundo da capoeira ainda é dominado por homens, mas aqui em Londrina a realidade está mudando. Fernanda Nasser é treinel no CECA e, no início do ano, abriu uma turma exclusiva de mulheres para ensinar Capoeira de Angola.

“A menina é ensinada a se comportar, a ser delicada, então o primeiro contato da mulher com a capoeira é muito diferente. Eu vejo a dificuldade que o corpo feminino tem de responder aos movimentos, que muitas vezes parece ser de bicho”, conta Fernanda, que antes de iniciar a turma feminina de Capoeira Angora, recebeu diversas solicitações para que fizesse isso de mulheres que tinham vontade de aprender, mas que tinham vergonha, ou se sentiam estranhas em realizar movimentos que não eram delicados suficientes para uma garota. “A mulher precisa se desconstruir mais que o homem na capoeira para se concentrar na movimentação e na força dos movimentos”, observa a treinel.

A turma de mulher do Centro Esportivo já conta com oito mulheres em três meses de atividade. Para Fernanda, que treinou em turmas mistas desde crianças, é muito gratificante ver o resultado desse ineditismo em Londrina: “pensar que as mulheres não vinham antes e agora vem, observar o desenvolvimento delas… É isso que me dá mais vontade de difundir a capoeira para cada vez mais pessoas”, comemora.

Quero fazer

O Centro Esportivo Capoeira Angola de Londrina conta, atualmente, com aproximadamente 30 alunos de Capoeira Angola e fica na Casa da Vila, na Rua Uruguai, 1656. Se você quer fazer parte dessa turma, pode entrar em contato com Marcelo ou Fernanda através da página do Facebook da vila cultural, ou pelo e-mail casadavilabrasil@gmail.com.